Por: Roberto Emerson Câmara Benjamin

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O ALMANAQUE DE CORDEL – INFORMAÇÃO E EDUCAÇÃO DO POVO


Comunicação apresentada ao colóquio internacional: Les al-manachs populaires en Europe et dans les Amériques (XVIIè-XIXè siècles): genres, circulation, échanges et rap-ports interculturels, de 13 a 16 de outubro de 1999, na Uni-versidade de Versailles-Saint-Quentin-em-Yvelines.

Introdução

Os almanaques populares do Nordeste do Brasil, também chamados “almanaques de cordel” e “folhinhas do ano”, são publicações anuais, em prosa e verso, que constam de calendário (com feriados e festas móveis de guarda pela Igreja Católica), fases da lua, posição dos astros, previsões do tempo e suas conseqüências em relação às práticas agrícolas, horóscopos, além de conselhos da medicina popular, ensinamentos diversos e pensamentos .
São editados por poetas populares, que publicam também poemas narrativos em folhetos – os chamados folhetos de cordel – impressos em gráficas artesanais constituí-das basicamente de caixas de tipos e prelos manuais ou a pedal (alguns desses prelos são fabricados artesanalmente na própria região). Os autores comercializam os almanaques através de pequenos comerciantes, os mesmos que vendem os folhetos de cordel em feiras, mercados e outros pontos de venda de produtos populares.
Os almanaques mais antigos existentes em coleções datam da década de 1930 , o que tem sido confirmado pelas informações da tradição oral. Não é aceitável a afirmação de que eles tenham começado a ser editados em fins do século XIX, quando as tipo-grafias rudimentares tornaram-se disponíveis em cidades do interior do Nordeste, ex-pandindo a edição dos folhetos de cordel. Também não é possível estabelecer qual teria sido o modelo que inspirou a confecção dos almanaques populares.
No século XIX, intelectuais do Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Salvador, Recife e Fortaleza editaram almanaques, quase todos de caráter lítero-recreativo. Algu-mas empresas comerciais, especialmente casas editoras e laboratórios farmacêuticos , imprimiram e distribuíram almanaques com previsões diversas, anedotas, charadas e horóscopos, associados à publicidade dos seus produtos, seguindo modelos norte-americanos e europeus. É provável que os almanaques das casas editoras e laboratórios tenham chegado às mãos dos poetas populares, considerando que outras publicações destas editoras figuram entre as leituras dos autores de folhetos de cordel.

O Lunário perpétuo


O texto matricial de todos os almanaques populares do Nordeste tem sido a obra de Jeronymo Cortez Valenciano, conhecida como Lunário perpétuo, cuja primeira edição é de 1703. Pelo menos, exemplares de três diferentes edições foram localizados por pesquisadores em mãos de poetas populares autores de almanaques .

O Lunário contém tabelas com fórmulas progressivas que permitem estabelecer os dias da semana em correlação com os dias dos meses, as lunações e as entradas dos as-tros nas casas astrológicas. Divulga, também, as características de cada astro e as conse-qúências das combinações resultantes da passagem dos astros pelos diversas casas. Com o jogo de combinações é possível fazer as previsões do tempo e todas as outras que vêm a constituir o horóscopo, segundo o período do ano em que as pessoas nasceram. Pelas conseqüências da entrada de determinado astro em uma casa, é feita a previsão do tem-po – chuvoso, seco, sujeito a granizo etc. – e, a partir daí, recomendações sobre a época propícia para o plantio de determinada variedade agrícola que requeira mais ou menos umidade, insolação etc. e as possibilidades de uma boa ou má colheita das espécies.
O Lunário, segundo se declara, escrito originalmente na Espanha, orienta a ativi-dade agrícola relativa a espécies agrícolas plantadas naquele país de clima tempera-do/mediterrâneo. Os autores populares, certamente, recorrem à sua experiência pessoal e ao saber local tradicional, para adequar as previsões agrícolas das culturas de sua região.
Há, também, no Lunário, um anexo com informações para diagnóstico de doenças e receituário, segundo a medicina pratica na época de sua elaboração.
O uso de um mesmo texto matricial explica a semelhança das previsões, a lingua-gem e os conselhos contidos em diversos almanaques populares editados para um mesmo ano. O poeta José Costa Leite , criticado por outro poeta-astrólogo, que o acusou de plágio, fez publicar, no ano seguinte, uma contestação em verso: “Escrevo meu almana-que / com o dom que Deus me deu / e quem pensar que eu vivo / fazendo o meu pelo seu / espere que o meu saia / e faça o seu pelo meu. // Pode até outro almanaque / com o meu se parecer. / Os doze meses do ano / cada qual pode escrever / E pode ficar pare-cido. / Mas, parecer não é ser”. Nas edições mais recentes, as diferenças devem ser atribuídas a outras leituras de cunho esotérico , e especialmente ao caráter e tempera-mento de cada autor, sendo alguns mais pessimistas, visionários, anunciadores dos fins dos tempos.

Poetas astrólogos
Utilizando-se das tabelas do Lunário, os poetas populares elaboram seus almana-ques e ganham a reputação de conhecedores dos segredos dos astros, sem nunca have-rem realizado observações sobre a órbita celeste ou deterem conhecimentos astronômi-cos.
Em conseqüência das previsões genéricas contidas em seus almanaques, os poetas vieram a ser procurados para consultas de natureza pessoal, passando a editar horósco-pos, signo por signo e a fazer estudos para horóscopos pessoais.

Com o crescimento da demanda de previsões por horóscopos, através de revistas e do rádio, os poetas verificaram que o atendimento às consultas constituía uma atividade rentável, muitas vezes superior à da edição dos almanaques. Para tanto, ampliaram tam-bém o seu conhecimento, enriquecendo a sua biblioteca com livros de autores esotéricos e horoscopistas.
Seguindo o modelo dos horoscopistas que atuam nos meios de comunicação de massa, passaram a anunciar, nos almanaques e nos folhetos, a sua disponibilidade para consultas e, logo, a oferecer amuletos específicos para cada signo e situação do consu-lente. Nestes casos, o almanaque passa a ser usado pelo autor como instrumento de pu-blicidade de sua atividade como horoscopista.
Com o envelhecimento e a morte dos mais conhecidos poetas astrólogos e a facili-tação do acesso aos horoscopistas - que atuam nos grandes centros, através de corres-pondência, do rádio, da televisão e do telefone, já agora da informática - a atividade dos poetas astrólogos e a edição dos almanaques estão em decadência.

Poetas místicos: avisos e profecias
Nem todos os poetas populares que produziram almanaques, ou que de algum modo desenvolveram conhecimentos astrológicos, dedicaram-se às práticas da sociedade de consumo, com atendimento a clientes e venda de produtos esotéricos. Em meio aos poetas populares, há alguns conservadores e místicos de orientação escatológica, que editam folhetos com avisos e profecias, anunciando desgraças e a proximidade do fim do mundo, em paralelo aos almanaques. A sua fonte, além do Lunário perpétuo, cujas conjunções dos astros permite elaborar previsões funestas, são o livro do Apocalipse, as obras de divulgação das profecias de Nostradamus e a tradição oral dos pregadores visionários milenaristas.

Os avisos são atribuídos a sábios , revelações, sonhos e aparições e, especialmen-te, a personalidades místicas bem conhecidas, como o Padre Cícero , diversos frades capuchinhos pregadores de santas missões , entre os quais Frei Damião . Este último, por diversas vezes, desmentiu através dos meios de comunicação de massa - especial-mente o rádio - que houvesse feito as profecias a ele atribuídas pelos poetas populares.


Função dos almanaques
O conhecimento empírico do público leitor dos almanaques nos permite atribuir-lhes as seguintes funções:
a) informação e educação
O almanaque é utilizado como fonte de informação sobre o calendário, dias santifi-cados móveis e fases da lua. O homem do campo e os pescadores dão grande importân-cia às fases da lua, que regeriam certas ocorrências e atividades, como o melhor mo-mento para o corte de árvores com aproveitamento da madeira, a pesca de certos peixes e crustáceos, a época da semeadura, o cio e o acasalamento de animais.
Pode-se observar nos almanaques populares informações como a utilidade das vaci-nas e as campanhas oficiais de vacinação, o uso de crédito bancário e práticas de irriga-ção.
Todavia, é mais evidente a função de reforço e legitimação de práticas transmitidas pela tradição oral. Tanto práticas agrícolas conservacionistas, em desuso pelos mais jovens (a adubação orgânica e a construção de cisternas, por exemplo) como em relação aos valores morais tradicionais (através de pensamentos, conselhos e provérbios e da exaltação de personalidades representativas destes valores, como o Padre Cícero).
Também em relação à medicina popular, nos parece que a veiculação de mensagens exerce uma função de reforço às práticas do saber tradicional, mais do que difusão de novas informações. Em geral, o uso de medicamentos populares é recomendado por especialistas da comunidade, sabedores das informações divulgadas pelos almanaques.
Assim, a forma escrita e impressa confere a chancela da modernidade ao conheci-mento tradicional de transmissão oral
b) alienação:
As previsões, tanto as pessoais, quanto as previsões do tempo e do resultado do trabalho agrícola, dão resposta à ansiedade em relação ao conhecimento do futuro. Sen-do a atividade agrícola a mais sujeita a incertezas, entre as atividades produtivas, é natu-ral que os agricultores sejam os mais preocupados com as condições de tempo e as pos-sibilidades de rendimento do seu trabalho.
c) lazer:
A primeira leitura e interpretação dos textos dos almanaques, em geral feita em ambientes coletivos, em razão do grande número de analfabetos dentre os compradores desta publicação, exerce uma função de ocupação do tempo livre e alimenta as conver-sas, estimulando os comentários e comparações com previsões anteriores e com situações assemelhadas já vivenciadas. Previsões de diferentes almanaques são também comparadas entre si.
À medida que passam os dias e meses, são feitas re-leituras e avaliadas as ocor-rências previstas, gerando assuntos para novos comentários. Ao final do ano e antes do início do uso da edição subsequente do almanaque, são feitas ainda re-leituras e discuti-dos os acertos e erros das previsões. Certamente o acesso à recepção da televisão em áreas periféricas e rurais ocupa, agora, uma parte do tempo livre, anteriormente empre-gado nas conversas de calçada, de bodegas ou de caiçaras de pescadores.



Conclusão
As edições dos almanaques populares, apesar de evidentes sinais de declínio, continuam no Nordeste do Brasil. Vários poetas preparam os seus almanaques para o ano seguinte e os expõem à venda a partir do mês de junho do ano em curso.
Vicente Vitorino de Melo e José Costa Leite fizeram uma primeira tiragem de mil exemplares cada um e, animados pela venda inicial, preparam-se para duplicar a tiragem. É possível que até janeiro do ano 2000 tenham ultrapassado os 5000 exempla-res, cada um deles.
A continuidade da edição de almanaques está ameaçada por diversos fatores, tais como:
a) a não renovação dos autores: os atuais editores estão em idade avançada;
b) mudanças culturais diversas, entre as quais a urbanização e a expansão das religiões evangélicas e pentecostais;
c) a concorrência com as previsões e horóscopos veiculados pelos meios de comunicação de massa;
d) dificuldade de utilização de novas tecnologias.
Mas, em favor da sobrevivência dos almanaques, contam-se:
a) a codificação dos textos em linguagem compatível com a cultura dos consumidores;
b) a compatibilidade do tratamento dos temas com a tradição cultural da região;
c) a resistência das populações da região às mudanças culturais;
d) a possibilidade de dispor do material impresso para consulta, durante todo o ano (e por toda a vida), contrapondo-se às informações de previsões e horóscopos veiculados pelo rádio, televisão e telefone;
e) a confiança dos leitores no poeta, líder de opinião, ao mesmo tempo portador da cul-tura regional e reputado como competente na especialidade da astrologia.
Os poetas populares, tanto em seus folhetos de poesia, como nos almanaques, sempre exerceram uma função informativa, permeada pela interpretação e opinião. O acesso do seu público à comunicação de massas reduz a sua importância como fonte direta de informação para o seu público. Todavia, reforça o seu papel de intérprete sele-cionador e decodificador do turbilhão de informações vindas em linguagens e valores estranhos.

BIBLIOGRAFIA
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