Por: Liszt Rangel
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SOMBRAS
Tudo poderia ser simplesmente como num desenho em que o artista do lápis delineia as sombras da paisagem ou das pessoas no papel. Ou quem sabe, como um maquiador, que aperfeiçoa os traços de um rosto anônimo ou de uma estrela de cinema.
Sombras não são apenas contornos em destaque que refletem com intensidade as criações artísticas.
As sombras são projeções de um mundo desconhecido e que por sua vez, também são ignoradas. Porque assim são, não quer dizer que não existam! Pelo contrário, do mesmo jeito que ocorre na arte do nanquim ou do lápis de olho, estas sombras as quais me refiro, dão todo um realce a um estado afetivo real, pelo menos na intimidade de seu projetista.
Em verdade, todos somos projetistas, desenhistas e maquiadores!
Damos vida, forma e contorno ao que habita em nós! Tudo que era estático, por um impulso desconhecido já vem à tona de nossa personalidade dissimulada e atinge o outro com a intensidade e com a velocidade de um risco que é feito num papel.
O outro é o nosso papel preferido. E que este seja de preferência, passivo, como são as modelos que se entregam em suas nuanças angelicais às mãos dos delineadores e projetistas de sombras da moda. O outro pode e deve segundo a nossa insensatez, conhecida como “normalidade”, ser o papel que nós como atores e atrizes frustrados não conseguimos interpretar. Então, se não conseguimos, melhor que alguém o faça, e da forma que nós desejamos.
Em família, sempre temos um bode expiatório, ou como se diz “alguém que deve pagar a nossa conta!”. Pode tratar-se de alguém de personalidade fraca e submissa ou um rebelde.O primeiro é quase um sociopata! Finge ser fraco, um coitado, um problemático, mas é nesta dissimulação que ele obtém seus lucros nas relações com os pais, irmãos e até parentes mais distantes. Na verdade, este é o que mais suporta a situação psicótica imposta com freqüência pelos pais, que por sua vez projetam suas sombras no débil mental que ajudaram a construir ao lado das circunstâncias existências da vida. É neste contexto que dizemos que a família pode constituir-se como a Instituição mais cruel da Humanidade. Haja vista, enquanto tivermos alguém para nele projetarmos nossa sombras, continuamos fortes e sobrevivendo ao nosso próprio caos íntimo!
Já o segundo, “o rebelde”, “o revoltado”, “a ovelha negra” geralmente é alguém que não conseguimos subjugar ao nosso espectro sombrio, porém continuaremos tentando sobre ela projetar nossas sombras qualificando a tal da ovelhinha com adjetivos que gostaríamos que ela fosse, mas que na verdade nós é quem somos. Esta relação também se estende para o trabalho, para a escola, para as relações afetivas de vária ordem. O outro é quem nós mais odiamos em nossa intimidade, ou outras vezes quem nós mais amamos e não conseguimos ser. Sim, posto que a relação entre amor e ódio nas relações sombrias é muito próxima, é até mesmo íntima. O que separa é só um muro muito fino e longo feito de blocos de concreto que podemos remover a qualquer hora que desejarmos. É semelhante ao muro que separa judeus e palestinos!
E por falar em judeus e palestinos. Quando estive em Israel, especificamente em Tel Aviv, voltava já tarde da noite pela rua em direção ao hotel, quando percebi uma sombra me acompanhando. Ele era alto, forte...(tudo o que eu não sou, mas quem sabe...). Eu apressei os passos, com certeza temendo uma abordagem agressiva, afinal de contas sou brasileiro e aqui no Brasil o que não falta é este tipo de abordagem que, geralmente, nos leva tudo que temos e a qualquer hora do dia. De repente, percebi que o homem não estava só. Apareceram outros três que apressaram, também, os passos. Aí..., pensei em correr, porém logo desisti, afinal eu estava cansado! E parei, voltando-me para trás com os pulsos cerrados, pronto para agredir... Descobri, então, que não tinha ninguém. Era apenas a projeção de minha sombra e à medida que eu me apressava, as luzes da rua jogavam mais espectros em torno de mim.
Assim é na vida. Quanto mais você fugir de você mesmo, mais sombras vai encontrar em seu caminho e de repente todos parecerão seus inimigos. Você vai querer correr, correr e correr, porém um dia você vai também cansar e vai ter que se enfrentar.
Vai encarar???
Liszt Rangel é escritor e pesquisador
lisztrangel@hotmail.com
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