Por: Liszt Rangel
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QUANDO SOMOS MANIPULADOS
“Compre baton, compre baton, seu filho merece baton!” Parece uma viagem no tempo que tento fazer, mas quem viveu na década de 80 e não se lembra de comerciais na TV como este? E aquele que dizia: “Não esqueça a minha caloi”, ou então, “um beijinho por um danoninho”... tudo nos parecia tão inocente, bem como a rainha dos baixinhos com suas mini-saias e suas paquitas, todas loiras e sensuais, cercadas de crianças e que deixaram como herança brasileira para as décadas de 90 e para este início de século os chamados filhos órfãos de pais vivos, que são aqueles garotos e garotas que resolveram levar a sério a brincadeira do estica e puxa e se tornaram muito instruídos com as músicas baianas, cantando: Aê-Aê-Aê-Aê, êêêê, ôôôô.
E a brincadeira de casinha que não se vê há muito tempo? Desde a época do Sr. Walt Disney, aquele velhinho com cara de bonzinho que resolveu dar uma reviravolta hollywoodiana nos contos de fada, deturpando inclusive o caráter original e cultural de cada um deles, oriundos de várias partes do velho continente, a Europa. Como a sociedade norte-americana era muito fechada no seu egocentrismo ufanista e religioso ortodoxo, o acesso da TV às crianças e à molecada adolescente não era fácil, pois a vigilância e o controle eram exercidos rigorosamente dentro dos lares, que ao mesmo tempo tentava manter a cultura de George Washington de filhos gentis, inteligentes, bem educados que só sairiam de casa para defender a pátria.
Como não dava para retirar as crianças de casa, Disney, criou uma turminha que poderia fazer a maior farra, incutir novos valores e o principal: sem sair de casa, pois esta turma da pesada não tinha família. Pois é, é verdade! Você já ouviu falar da mãe do Pato Donald? E do Mickey? E do Pateta? E quem é o pai do mau caráter do Pica-Pau? E do Papa-Léguas? Sem esquecermos de Faísca e Fumaça, Tico e Teco, pois ambas as duplas eram feitas de irmãos que brigavam como quase todos os irmãos, mas aprontavam juntos e estavam unidos para combater sempre alguém que tentasse mudar as suas escolhas.
E um estranho, já que familiar não existia, não podia mudar as escolhas deles. Esta era a mensagem. Essas escolhas não são feitas aleatoriamente. Freud, o Pai da Psicanálise, já dizia que somos e seremos sempre o resultado dos desejos e principalmente das faltas de nossos pais. Dizia ele, inclusive, que toda mulher só engravida para preencher uma falta. Tudo bem que Freud em alguns momentos radicalizou, pois o seu conflito com sua genitora era a prova de que ele também se constituía uma escolha dela. É, essencialmente, o olhar dos pais com todo desejo que eles carregam que nos preenchem de escolhas e muitas delas são inconscientes.
No tocante a influência da mídia, em especial, da propaganda, tanto adultos quanto crianças são afetados. Há adultos que, muitas vezes, dramaticamente, se envolvem com os personagens das novelas, torcendo pela felicidade deles e muitas noveleiras e noveleiros (para não ser machista), choram, comentam no supermercado, saem cedo do trabalho para ver o último capítulo da novela e no final de tudo, nós acreditamos alienadamente que Reinaldo Gianechinni usa havaianas, porque “todo mundo usa”! E lá vamos nós de havaianas para o shopping, para o banco, para o batizado, para o casamento... Não esqueçamos, também, que há atores e atrizes que se envolvem tanto com essa mistura de realidade e fantasia que terminada a gravação da novela, muitos recorrem ao psicólogo para se livrarem de traços do personagem.
Quando refiro-me à fantasia, quero dizer de tudo aquilo que atinge de forma intensa a área de nossos anseios, e até de nossa frustração. E a fonte a ser atacada pela mídia é o desejo. Já imaginou, portanto, uma criança que ainda não difere realidade de fantasia e está transbordando de desejos pelo maravilhoso, pelo que é belo, pelo glamuroso, do tipo Hanna Montana ou como, por exemplo, o mundo maravilhoso da Barbie. Em primeiro lugar, como diz o jornalista, Flávio Paiva no documentário Criança, a Alma do Negócio, “ninguém é mãe da Barbie”, ou seja, a boneca que já está uma cinquentona não inspira a maternidade tão necessária na formação de uma menina e a danada da boneca ainda faz jogging( não quero dizer que os “cinquentões e cinquentonas” não podem se exercitar e melhorar a saúde ou buscar uma maior beleza); ela também vai ao salão, ou melhor, tem um salão próprio para ela e depois vem aquela enxurrada de coisas que só aquela magricela tem e que o pai ou a mãe de qualquer criança será conduzido pelo desejo operado e induzido através da propaganda, a comprar: a casa da Barbie, o carro da Barbie, o pet-shop da Barbie, a bicicleta da Barbie e finalmente o namorado da Barbie, o Bob.
O assunto é sério e dá muita dor de cabeça aos pais e responsáveis. E mais séria ainda, primeiramente, é a postura dos pais e depois, dos órgãos competentes que deveriam fiscalizar melhor este processo de coisificação que o ser humano, mesmo ainda na infância vem sofrendo. A situação está tão escandalosa que até em propaganda de celular tem criança presente, ou então, segurando o cartão de crédito do pai e indo para o ataque as prateleiras que estão, “coincidentemente”, ao alcance delas. E quanto mais a mídia as alcança, os pais estão à distância... Estão longe não apenas de seus deveres, mas até do conhecimento de seus direitos.
O código de defesa do consumidor não é um livro de biblioteca, é um manual de uso necessário na defesa conscienciosa de nossa vida e dos direitos que temos. No capítulo III que trata Dos Direitos Básicos do Consumidor, no artigo 6º, item IV, está expressamente declarado que deve haver “a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais coercitivos, desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços;” sendo assim, já existe um dispositivo legal que pode amparar e proteger o consumidor de tornar-se uma marionete nas mãos das propagandas e da grande mídia.
Resta-nos perguntar: qual a outra saída além da consciência de nossos direitos e a luta pelo exercício destes? Um caminho mais curto seria começar o desenvolvimento desta consciência no lar. Não me refiro a posturas radicais como as do tipo: desligar a TV; porque, se a criança não aprende em casa, as amiguinhas e amigos do colégio irão exigir que ela faça parte deste contexto consumista como única senha de identidade no grupo social. Todavia, se conseguirmos uma identificação de nossos pequenos consumidores com o que é diferente e com isto provarmos a eles que ser diferente dá maior prazer do que ser comum, já teremos dado um grande e importante passo na renovação ou na reinvenção de valores ético-morais de nossa sociedade e, assim, teremos maior chance de não perdermos este momento mágico e longo período, que é a infância, mas que vem ficando tão curto.
A saudade é tão grande que até me sinto um extraterrestre para aqueles que nem sequer conseguem ter saudade de algo! Falo por aqueles da minha geração, “de perdidos no espaço” aos da geração líquida, em que tudo é fluido, temporário e perde logo a graça. Tenho saudade das bonecas de pano, dos carros de lata e das bolas de futebol de botão, feitas de miolo de pão! Por que não demoraram mais com isto? O pão nem miolo tem mais, é só bromato... E por falar em miolo, quem os tem hoje em dia?
Como sentimos falta dos quintais com suas goiabeiras e mangueiras e também as casas na árvore, iguais a do Tarzan! Que bom seria, experimentar, outra vez, em nossa imaginação, os bolinhos de chuva da Tia Anastácia... e na hora do intervalo da brincadeira, ao invés de ouvirmos a irritante música do meu querido pônei, nós, simplesmente, escutarmos: “já para o banho, pois vamos jantar!” E todos na mesma mesa estaríamos, falsamente educados, mas ao menos não estaria cada um em seu quarto, comendo gordura hidrogenada, diante de uma TV de plasma, assistindo CSI ou aquela atrofia cerebral chamada Malhação, e ainda achando que iremos viver muito para vermos o Santa Cruz ser restituído em tudo o que lhe roubaram!
Acho que nos tornamos os brinquedos, não de nossa comédia, mas de nossa própria tragédia!
Liszt Rangel é escritor e pesquisador
lisztrangel@hotmail.com
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