Por: Liszt Rangel

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FIEL COMO UM CÃO


Quando eu era menino, não fazia idéia e acho que até hoje não faço, da profundidade da frase: fiel como um cão. Perdoem-me os puritanos com a comparação que irei fazer entre um animal e um ser humano, se bem que muitas vezes não sei aonde começa um e termina o outro em nosso comportamento. Nem tão pouco vou ser radical ao ponto de falar tamanha asneira como a daquele ministro de um certo governo brasileiro que emprestou um dos carros ministeriais para o motorista levar o cachorro dele ao veterinário e depois na maior cara de pau, respondeu para todo o Brasil ouvir: “o cachorro é também um ser humano”.
É verdade, que cada vez mais a ciência vem se empenhando em compreender as origens do mundo hominal. Já se sabe, por exemplo, que nossos antepassados das cavernas tinham no lobo olfativo um minúsculo órgão chamado rinencéfalo que permitia a eles passarem a registrar através do cheiro o que lhes era saudável ou tóxico, comestível ou não. Isto, também, incluía a escolha de suas parceiras para o contato sexual. O rinencéfalo, portanto, era a memória olfativa destes homens e mulheres que se tornavam pouco a pouco fiéis ou repulsivos, através do simples ato de cheirar.
O cheiro ainda hoje é explorado pelas indústrias de cosméticos e perfumes. Estive certa feita, em uma fábrica de essências no Cairo, essências estas que são vendidas no mundo inteiro e, em visita, o vendedor me falou: “vendo-lhe um perfume que ao chegares ao Brasil, estarás sexualmente exausto, pois as aeromoças farão uma festa contigo no avião”. Bem, como não acredito em Papai Noel para aceitar todo aquele exagero, muito menos possuo qualquer fantasia sexual com aeromoças, não comprei o perfume pra mim, mas resolvi presentear um amigo com uma promessa parecida e o que ele tem me dito é que só o que lhe falta agora, é comprar a passagem de avião.
Pois é, o cheiro não pára por aí. Até a medicina veterinária vem usando um produto a base de ureia para atrair cachorrinhos a fazerem pipi no local onde está presente o cheiro, condicionando-os, assim, a não sujar mais o resto da casa.
Finalmente, voltamos aos cachorros e porque não dizer às cadelas também, porque foi graças à lembrança que tive de uma cadela que marcou muito minha vida durante a adolescência, que comecei a escrever sobre este assunto para você que me lê. E quando disse que marcou minha vida não dê asas a sua imaginação, não, por favor! Êpa! Vamos devagar, não vá pensando em outra coisa não. Nunca morei em sítio, nem sou adepto do pansexualismo ou de outra perversão... O interessante mesmo foi que a danada da cachorra se afeiçoou tanto a mim, que me acompanhava às 6 horas da manhã quando eu ia para a escola, caminhando ao meu lado cerca de seis quadras e ainda ficava me esperando subir no ônibus; quando eu voltava às segundas, quartas e sextas lá pelas 22 horas, pois tinha atividades esportivas nestes dias, ela vinha me buscar e me deixava em casa. Se ela tivesse carro, acho que era até capaz de buzinar para avisar que eu havia chegado. Nesta época, eu era tão sozinho que conversava com ela. E o pior, é que eu achava que ela entendia minhas desventuras de adolescente. Hoje, compreendo melhor aquelas senhoras que conversam até com plantas.
Seu nome era Bela. Uma vira-lata marrom de calda fina e balouçante que era por demais espancada por um vizinho meu que era macumbeiro. Ah, os meus vizinhos... Ainda falo deles aqui, só para você, um dia. Em certa ocasião, não aguentei mais ouvir a pobre apanhar e saí para defendê-la. Daquele momento em diante, conquistei uma amiga inseparável. Bela era muito fiel!
Já nós, apáticos mortais, bronzeados por este efeito estufa doentio, não conseguimos ser assim, tal qual Bela. Somos cinicamente infiéis. E as pesquisas apontam que em muitos estados brasileiros o número de mulheres que trai é superior ao dos homens. A fidelização de pessoas hoje em dia está ligada à administração, ao marketing e, fidelizar, se aprende até em faculdades. Mais uma vez, o afeto espontâneo e consciente torna-se moeda de escambo.
Mas, quando se trata de ser fiel como “Bela”, por que há tanta dificuldade? Primeiramente, seria de nossa parte, puro reducionismo, afirmarmos que é da natureza animal ser infiel. Os que defendem a teoria animal devem ter como ídolo o Juscelino Kubischeck que, enquanto Presidente, transou com a esposa de um outro presidente em pleno vôo. Ou, estes devem ser fãs do Michael Douglas e de suas puladinhas de cerca. Puladinha tão rápida que fazia sexo com a primeira que aparecesse em sua frente e em qualquer lugar, mas depois que a Catherina Zeta-Jones lhe impôs um contrato de casamento em que ele pode chegar à miséria absoluta, caso a traia, ele parece que tomou jeito. Depois disso, ele tem refletido melhor, até se é homem ou animal.
Alguns especialistas do comportamento encontram na Psicanálise uma explicação: já nos tornamos adultos com medo da traição. Traição sofrida na infância, quando papai trocou a menina dele pela esposa, ou quando mamãe preferiu papai, ao menino. Este jogo de busca pelo olhar do outro em rivalização com o mesmo gênero chama-se, na Psicanálise, de Complexo de Édipo. Quando, portanto, o menino percebe que ela, sua mãe, não olha para ele como olha para o pai, inicia-se então uma fase importante na vida deste filho, ou desta filha que da mesma forma rivaliza com a mãe pelo amor do pai. Segundo estes estudiosos, isto explicaria em muitos casos o medo da traição nas pessoas e aquilo que muitas vezes mais tememos encontrar, em verdade é o que buscamos viver de forma inconsciente.
Esta busca pode estar na origem de comportamentos infiéis, numa tentativa fantasiosa de encontrar o homem ou a mulher ideal que apenas existem em nosso inventário de experiências passadas que foram frustradas ou não realizadas e que se encontram bem sedimentadas em nossa estrutura psíquica.
O bom mesmo é não fecharmos apenas uma explicação sobre este assunto, pois como se diz “cada cabeça é um mundo” e acrescento: algumas cabeças são mais enfeitadas do que outras.

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Liszt Rangel é escritor e pesquisador
lisztrangel@hotmail.com




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